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Palestra sobre saúde e trabalho reúne quase 2 mil professores em Campo Grande

Cerca de 1900 professores da rede municipal de ensino reuniram-se na tarde dessa segunda-feira para participar da palestra "Educação é lugar de saúde, não de doença". O evento que teve a participação de diversas autoridades, entre elas o Ministro Corregedor da Justiça do Trabalho, Lélio Bentes Corrêa, foi promovido pelo TRT/MS, em parceria com instituições ligadas ao movimento Abril Verde.

O palestrante, Rossandro Klinjey, renomado psicólogo e escritor é bastante conhecido entre os profissionais da educação por ser especialista em assuntos como comportamento, educação e família. 

Rossandro chamou a atenção para uma realidade nacional. "Se existe um grupo de profissionais que está em sofrimento psíquico é o professor de escola pública no Brasil. Nós temos ainda muitas conquistas a serem realizadas, tanto em termos de remuneração quanto em termos de status. Mas isso faz tempo que é um problema. O elemento novo é o desrespeito que começou a ser construído ao longo de duas décadas. Como os alunos e pais de alunos se relacionam com o educador? Se nós encaramos essa idéia como uma competição entre pais versos professores e não a união deles em prol do aluno nós vamos ter problemas. Temos um índice alto de afastamentos, Síndrome de Bournout, vários tipos de doenças e transtornos".

Klinjey falou da dificuldade que o professor no dia a dia e ressaltou a importância que a educação tem para o a nação. "Não é fácil ser professor num ambiente hostil com tráfico de drogas, com alunos armados dentro da sala de aula, essa é a realidade. O que eu quero passar hoje é que desistir não é uma opção. Se o professor desistir da educação no Brasil qual projeto de nação vamos construir? A grande reforma que o Brasil precisa é olhar a educação com a importância e o significado que ela tem para transformação de um povo", concluiu.

A Desembargadora Maria Beatriz Theodoro Gomes, do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região, gestora nacional do Programa Trabalho Seguro, falou sobre a importância de ações como a de hoje para mudança da realidade atual. "Precisamos conscientizar o poder executivo, como empregador, e os pais dos alunos. É um momento ímpar falar sobre esse assunto, quando se aborda além da educação temas de cidadania. Existe uma delegação por parte dos pais, que tentam passar para o professor obrigação que são da família e isso causa uma sobrecarga emocional", concluiu.

De acordo com o gestor regional do Programa Trabalho Seguro, juiz Márcio Alexandre da Silva, o adoecimento de professores e os casos de agressões em escolas motivaram o TRT/MS a promover a discussão sobre a saúde desses trabalhadores. "Como o próprio tema da palestra sugere, educação é lugar de saúde, não de doença. No entanto, a cada ano cresce a notificação de acidentes típicos envolvendo os professores. Em 2017 foram 23 acidentes notificados e, em 2018, esse número quase triplicou, com 64 acidentes notificados. Isso sem falar dos adoecimentos mentais, que existem, mas que não aparecem nos dados oficiais por conta da subnotificação", disse o magistrado.

Em 2018, na rede municipal de ensino de Campo Grande, 64 professores sofreram acidentes de trabalho, sendo que pelo menos nove desses casos foram relatados como "ataque de ser vivo", o que sugere casos de agressões, resultando, ao todo, em 774 dias de afastamento da atividade profissional. Também foram notificados 26 acidentes com cozinheiros e três com faxineiros em escolas do Município. Os dados são do CONCAT - Sistema para Consulta Online de Dados da Comunicação de Acidente de Trabalho, que permite o acesso ao banco de dados da Previdência Social.

Ambiente saudável

A professora Maria Helena Reis, conta que admira o trabalho do psicólogo e assiste às palestras pelas redes sociais. Na sua opinião, o profissional incentiva a autoestima e leva o indivíduo a refletir quanto a sua postura no ambiente de trabalho. "Eu acredito que a partir do momento que ele traz a problemática da saúde mental, promove uma reflexão sobre o que você está fazendo com sua própria saúde. Ele faz a gente refletir sobre nossas ações e com isso, mudamos nossas atitudes no trabalho e até na vida pessoal e não jogamos a responsabilidade apenas no outro", pontuou.

Para a diretora-adjunta da escola Professor Vanderlei Rosa, Lucilene Fernandes de Oliveira, a abordagem do tema é de grande relevância também para as relações do ambiente escolar e auxilia os gestores a proporcionar um ambiente saudável de trabalho. "Temos que buscar as possibilidades e o potencial das pessoas e fazer com que elas percebam a sua importância e contribuição para a escola. Temos que trabalhar de forma que eles se sintam satisfeitos e, assim, manter um ambiente salutar. Por isso, é necessário ouvir as demandas e sugestões. Desta forma, construímos um ambiente democrático e as pessoas ficam felizes", disse.

Abril Verde

Mato Grosso do Sul registrou 8.331 acidentes de trabalho e 32 mortes, em 2018. No ano anterior, foram 8.091 casos com 38 óbitos, uma queda de 16% nos acidentes fatais. As profissões com maior número de notificações são alimentador de linha de produção, coletor de lixo domiciliar, técnico de enfermagem, trabalhador rural e motorista de caminhão.

Campo Grande é responsável por 41% do total de acidentes no Estado, com 3.405 casos registrados no ano passado, quase 10% a mais em relação a 2017. Dourados aparece em segundo lugar com 794 notificações. O município apresentou um aumento de 18%, o que se deve especialmente aos acidentes ocorridos no setor frigorífico, em 2018. Três Lagoas é o terceiro no ranking de acidentes de trabalho, com 580 casos, o que representa uma queda de 15% se comparado a 2017.

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